segunda-feira, 9 de julho de 2012

Mystique Résidence - Parte Três


                Abres os olhos sobressaltado, estás enrolado nas mantas velhas e rotas, a morder parte delas com todos os teus dentes, escorres suor como se fosse água, sentes as tuas orelhas quentes e a tua testa a palpitar violentamente. Tentas levantar-te mas é-te impossível tal feito, chegas à conclusão de que estás doente, demasiado febril para andar, que possivelmente é desta que se acaba a tua jornada. Agradeces a ti mesmo por teres tomado a decisão de seguir o teu sonho tornado objectivo, encostas a cabeça ao teu ombro e pensas como é estranho que o consigas fazer. Nunca tinhas parado para pensar nisso, mas o teu corpo faz coisas estupendamente estranhas, coisas que nunca falaste com ninguém por achares que é algo de que toda a gente se iria rir, é algo que não te faz sentido, como das vezes em que leste que era impossível lamber o teu próprio cotovelo e fizeste uma figura triste a tentar fazê-lo, ou ainda aquela outra situação em que tentaste fazer sexo oral a ti próprio e a coisa não correu bem como esperavas. Desatas a rir desalmadamente a acreditar que a tua vida foi um apanhado de situações ridículas que não podiam ter acontecido a mais ninguém, pelo menos o teu humor ninguém to tira e acreditas que é aí que reside a tua essência, e acima de tudo, a tua humanidade. A muito custo jogas a mão à mochila e procuras pelo relógio que tens ideia de ter trazido contigo, como não tens muita coisa na saca cor-de-laranja consegues perceber que estás enganado e que não trouxeste qualquer tipo de dispositivo que mantenha o percurso do tempo nas unidades humanas, começas a duvidar da tua sanidade e ao veres um monte de pedras retiras uma delas, olhas para ela como se fosse uma pérola e espeta-la entre os olhos. Não sabes bem ao certo o porquê de o teres feito, apeteceu-te. Pelo buraco que ficou no monte de pedras consegues ver que este esconde algo mais que apenas rochas para automutilação, esticas o braço direito e não lhe chegas nem perto, tentas com o esquerdo e surpreendentemente nem precisas de o esticar, voltas a ter a sensação de que o teu braço não costumava ser tão longo, mas não dás muita atenção a esse pensamento. O objecto que estava debaixo das pedras é um relógio. Examina-lo e vês as horas, 16:16 “ao menos morro com alguém a pensar em mim”, fechas os olhos e inspiras profundamente, susténs a respiração. Tudo seria tão mais fácil se conseguisses simplesmente sufocar-te. Tens a infeliz ideia de retirar os cordões das tuas sapatilhas e enforcares-te com eles. Enrolas os cordões à volta do teu pescoço, fazes um nó de deslizar, e lentamente começas a puxar uma das extremidades, sentes o teu pescoço a ser apertado, “que bem que isto sabe”, pensas. Sentes que talvez ainda consigas retirar mais prazer desta tua ação, e lentamente começas a sentir-te excitado sexualmente e dás por ti a masturbares-te. Primeiro de forma vagarosa, com cuidado, como se acariciasses o teu animal de estimação favorito, depois com mais entusiasmo e finalmente como se a fúria dos deuses te caísse em cima. Empregas todas as forças que te restam a dar-te um último prazer, sentes o espaço ao redor dos teus olhos a encher-se de sangue, sentes o teu pescoço a entupir, pelo esforço que fazer tentas por tudo apanhar o máximo de ar possível. Já tinhas ouvido dizer que a masturbação e o sufoco andavam de mão dada, mas nunca desconfiaste de que seria uma experiência tão marcante, algo que te fizesse querer explodir de dentro para fora, no sentido figurado e literal. Gritas, gemes, chamas por quem costumas chamar sempre que te dás prazer a ti próprio, sentes-te cada vez mais próximo do orgasmo e puxas a ponta do cordão ao máximo. Começas a ter convulsões enquanto atinges o clímax sexual, dás cacetadas com os teus membros superiores e inferiores no chão e nas paredes, acreditas que desta vez vais curar mais que apenas uma dor de cabeça, jorras os teus fluídos por tudo quanto é lado e reviras tanto os olhos que acreditas que consegues ver a parte de dentro da tua cabeça.

                - Ah, que se foda! Morro feliz…

domingo, 8 de julho de 2012

Mystique Résidence - Parte Dois

Sobes a ribanceira e voltas para a estrada. Andas horas a fio. O número de veículos que por ti passaram conta-se pelos dedos. Aquela imagem da velha a gritar “oito” é que não te sai da cabeça. Pensas que estás a pensar demasiado nisso, tentas esquecer, mas o teu cansaço já não te deixa fazer isso. Chegas à conclusão de que o melhor é tentares a tua sorte a apanhar boleia, mas ao mesmo tempo acreditas que isso não te vai levar a lado nenhum, com a quantidade de carros que por ti passaram talvez daqui a três ou quatro dias encontres um que esteja disposto a ter um puto no lugar do morto. Sempre que ouves alguma coisa a vir na tua direcção, esticas o braço esquerdo, às tantas começas a sentir que tens o braço mais comprido, mais esticado. Abanas a cabeça em negação. Nessa altura pára um mini ao teu lado e abre-se a porta do pendura. Entras sem pensar duas vezes, lá dentro está alguém com cabelo comprido que lhe cobre a cara, usa roupas largas, por isso nem dá para perceberes se é homem ou mulher. Podias pensar que se calhar não devias ter aceitado o gentil gesto da pessoa incógnita, mas até estás confortável assim, por isso, não há problema. O veículo desloca-se a uma velocidade baixa, daí não o teres notado próximo se ti, e em três horas, mais coisa menos coisa, chegam a uma cidade que tu nem sabias que existia. À entrada o carro pára e uma voz feminina diz-te para saíres. Fazes o que te manda, afinal de contas o carro não é teu. Assim que sais e te voltas para agradecer a boleia já o carro lá não está, nem há sinal dele em parte alguma. Pões as mãos nos bolsos e andas devagar, a analisar aquela paisagem desconhecida para ti. Notas que a maior parte dos edifícios, embora grandes e imponentes, estão muitíssimo mal tratados e parece que vão ruir a qualquer momento, entre alguns escombros daquilo que parece ter sido uma igreja cristã, encontras uma ficha de inscrição para o que pensas ser uma escola. Agarras e começas a ler.

Mystique Résidence procura pessoas como tu! Se tens esta folha nas tuas mãos é porque ela te pertence, foi o destino que assim o quis, não ignores este sinal. Somos uma comunidade de indivíduos colectivos que se juntam numa sociedade singular em redor de uma característica comum, uma mesa! Preenche com os teus dados se queres que seja adicionada uma cadeira e uma cama para ti! Não percas mais tempo!

Reviras os olhos após ler tal absurdo. Um texto que não te faz o mínimo de sentido, que tenta ser engraçado e apenas se acaba por se enterrar mais. Mesmo assim sentes uma vontade enorme de preencher a folha, só pelo gozo. Procuras na tua mochila por algo com que escrever, encontras uma caneta meio comida, lembraste que é a mesma que utilizavas na Primária. De repente memórias de quando a vida ainda existia, de quando ainda não te tinha acontecido nada que te tornasse na carapaça vazia que és hoje. Lembraste de como adoravas aprender, mas todos os dias voltavas para casa com a sensação de que foras enganado com promessas falsas. Lembras-te de quando conheceste pessoas que, por motivo nenhum, te ficaram queridas de imediato, eram essas as pessoas com quem tu partilhavas a tua sandes, mesmo que soubesses que aquilo era tudo o que tinhas até ao fim do dia. Lembraste de jogar à bola e, fruto de alguns mal-entendidos, andar à porrada com mais de metade dos teus colegas. Cerras o punho como se quisesses eliminar essa última memória, mas é em vão. Escreves, primeiro o teu nome, depois a tua data de nascimento, e não vês mais nada que tenhas que preencher ou assinar, de facto, não notas mais nada senão o texto e essas duas indicações. Amarrotas a folha e joga-la de volta para os escombros, sentes-te como se o teu cérebro tivesse diminuído.

Já o sol se começa a pôr e estás cansado. Cansado não, exausto. Vês algumas casas abandonadas e começas a explorá-las. Acabas por te instalar numa delas, a que tem o aspecto mais cuidado, ou seja, tem um colchão no chão e algumas mantas rasgadas no outro canto da sala. Pegas nas mantas, deitaste no colchão, tapas-te. Sentes-te bastante confortável. Comes o pequeno pacote de bolachas que estava esquecido na tua mochila há anos e bebes a água que te resta, esperas que te deixes dormir depressa, o que acaba por acontecer. Acordas, estás no carro ao lado da senhora misteriosa. Esfregas os olhos com força, podias jurar que já tinhas saído de lá. Ouves novamente a voz feminina, desta vez diz-te que dormiste durante quase catorze horas, que assim que entraste no carro apagaste por completo. O seu tom de voz mostra preocupação pela tua pessoa, e lá no fundo, ficas comovido. Ao passar por uma estação de serviço o automóvel é estacionado e a condutora abandona o veículo. Reparas em algo estranho, nas suas calças está um enorme alto, algo quase desumano, quando olhas para o tronco reparas que o mesmo acontece, mas em vez de um existem dois altos, lado a lado. Estás confuso, afinal tens estado a viajar, pior, a dormir ao lado de quê? Abres a mochila para beber água, mas já não tens a garrafa. Procuras pelo pacote de bolachas, também já não existe! Estás a dar em maluco. Começas a pensar que, às tantas, nem saíste do teu quarto e estás apenas deitado na tua cama a ter mais uma crise de identidade, daquelas que tens de vez em quando, em que o suicídio te parece ser a opção mais viável, pois estás convencido de que não farias falta a ninguém, daquelas crises de que ouves toda a gente queixar-se mas que pensas para ti mesmo “vocês sabem lá o que é uma crise. Sabem lá o que é ter de conseguir angariar forças suficientes para enfrentar mais um dia na vossa companhia? Na vossa terrível e totalmente dispensável companhia? Tenham paciência.”. A tua linha de pensamento é quebrada por uma forte cacetada no capô do carro. Depois mais pancadas se seguem, em diversos locais da lata em que estás dentro. Consegues ver algumas criaturas pelo vidro, são criaturas sem cara, têm apenas um braço enorme, os pés trocados, tortos e inchados e o maxilar aberto ao meio, alguns até o têm dividido. Tentas não entrar em pânico e jogas as mãos aos controlos do carro tentando lembrar-te de como era que o teu pai fazia. Sorte a tua que segundos depois vem a mulher-homem e em três tempos já deixaram as criaturas para trás.

“Não há tempo para explicar! Desculpa, mas quanto menos souberes melhor.” Diz ela a tentar recuperar o ar. Parece que correu uma maratona em tempo recorde, notas também que tem os braços mais grossos e pela primeira vez consegues ver o seu rosto de relance. É quadrado, quase geometricamente perfeito. Tem alguns pelos faciais, mas não o suficiente para se dizer que tem barba ou bigode. Olhas para a frente e apercebeste de que a velocidade a que viajas é estonteante. Começas a querer gritar. Estás já tão afundado no banco que mal te consegues mexer e respirar. Os teus ouvidos estalam. Os teus olhos saem das suas órbitas, o direito até chega a ser totalmente projectado da tua cara assim que o mini embate contra uma parede. O teu corpo embate contra o cinto de segurança, quebrando todas as tuas costelas sem excepção, estas perfuram todos os teus órgãos interiores. Começas primeiro por sentir os pulmões afectados, e, em menos de nada, estás já a afogar-te no teu próprio sangue. É estranho sentires o gosto metálico de que outrora tanto gostaste mas que desta vez preferias não sentir. Sentes algo de estranho dentro de ti, dentro do teu peito. Sentes como se algo te estivesse a arranhar o teu coração, literalmente, apercebeste disto e esforças-te ao máximo para encheres o peito de ar, gritar e mexer-te. As tuas acções são em vão, apenas te faz sofrer mais. Olhas para a esquerda na esperança de veres como está a pessoa que vinha a conduzir. A muito custo olhas na sua direcção e preferes não o ter feito. Ao teu lado está uma das criaturas sem cara, mas desta vez com dentes serrilhados que depressa te morde o nariz e to arranca. É te cuspido de volta, antes de fechares os olhos para o sono eterno ouves esta criatura gritar “nove”.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Mystique Résidence - Parte Um

Tens 16 anos. A localidade onde tens vivido desde sempre, maltrata-te de todas as maneiras possíveis e inimagináveis, estás por tudo para sair daí. A tua família é uma merda. Os teus amigos eram uma merda, e agora, estás sozinho, e sentes-te como merda na mesma. Resumindo, a tua vida é, toda ela, uma merda. Decidiste o correto ao dares este passo, o passo para fora daquilo de que todos te querem convencer ser um lar, uma casa onde tens carinho, amor e afeto. Estás totalmente confiante de que daqui em diante vais ser tu e só tu na tua vida, mas nada que te faça tremer as pernas, estupidamente, sentes-te mais acompanhado agora do que alguma vez te sentiste em qualquer momento na tua vida. Sentes que até a tua sombra está contigo, que desta vez és um todo; o teu corpo, a tua mente, o teu coração, a tua sombra e a tua essência são, desta vez, os componentes que constroem o teu “eu” interior.

O sítio onde vives é pequeno e calmo, principalmente à noite, sabes que muito dificilmente passará algum carro por ti. E começas a andar, sem rumo, com a tua mochila cor-de-laranja fluorescente. Para trás ficou a única coisa que te fazia permanecer aqui, a tua cama. A tua melhor amiga em todas as alturas, sempre esteve lá para ouvir as tuas lamúrias, sempre te permitiu que a abraçasses, nunca te afastou por algo que disseste ou fizeste, guardou todos os teus segredos, dos mais importantes aos sem qualquer tipo de significado, aqueles que querias que fossem mesmo segredo, que não querias que ninguém soubesse deles, e os outros que na realidade apenas os querias gritar aos ventos e aos mares. Hesitas, olhas para trás e espremes os olhos de modo a fazer escorrer a lágrima que já te começava a incomodar. “Esta é para ti amiga”, pensas. Não ousas abrir a boca, muito menos proferir som. Cansaste-te da tua voz há já muito tempo para sequer te lembrares. Outra das coisas que te cansaste foi do aparelho que muitos consideram totalmente indispensável nos dias de hoje, telemóvel. Atiraste-o para dentro do rio que passa poucos metros atrás da tua casa, é dos melhores arremessos que já alguma vez fizeste, e das ações que mais te orgulhas. Esboças um pequeno sorriso, olhas para os teus pés e pensas que estás mais parecido com alguém que veio de uma rave, ou então algum ladrão de segunda categoria, totalmente vestido de negro. Na verdade são apenas as roupas mais confortáveis que tens, acontece que são escuras, uma blusa de gola alta azul-escura, umas calças pretas, largas e repletas de bolsos, bastante uteis nesta situação, umas sapatilhas/botas, o único presente que alguma vez gostaste de ter recebido. Normalmente aniversários não existiam para ti naquela casa, os teus presentes resumiam-se a dirigirem-te a palavra para que lavasses a casa, ou para que levasses todos os cães do canil para passear, a única coisa que vias de positivo é que era sempre um dia em que a escola ficava para segundo plano.

Jogas a mão à mochila, alarmado, mas encontras tudo aquilo que necessitas. Ainda pensaste em agarrar no computador, mas chegaste à conclusão de que a única coisa para que ele te servia era para ter algum prazer fútil enquanto jogavas a qualquer jogo pouco desafiante, e mais recentemente já nem isso te era prazeroso, deixando-o em casa ainda pode ser de alguma utilidade para a tua família, embora sejam uns falsos de meia tigela precisam mais de um computador do que tu, e nem te custa muito isso, é menos peso para ti. Olhas para cima e vês que a lua se esconde de ti, lembraste de um conto que ouviste uma vez, que sempre que a lua se esconde de quem a procura significa que esse alguém terá um destino negro. Nunca foste supersticioso, portanto não vês razões para o seres agora. Respiras fundo até te doer os pulmões e começas finalmente a dar passos em frente. Não sabes para onde vais, mas sabes que é aquilo que queres e que tens tudo aquilo que precisas, roupa para te aqueceres e vontade de viver. Assim que deixas de ver luzes a iluminar a estrada pensas que talvez as coisas sejam um pouco mais complicadas do que pensavas que seriam ao início, mas não é isso que te demove, o que te demove é a falta de confiança, não que tenhas medo do que reside no escuro, mas do medo do que te podes tornar no escuro. Lembraste de algumas cosias que aconteceram em certas noites e chocalhas a cabeça para terminar essas ideias negrumosas. Desces a pequena ribanceira em que fica a estrada e encostaste a ela quando não podes descer mais, pensas que se passares aí a noite nada te acontecerá, adormeces pouco depois.

Acordas sobressaltado com uma trovoada ao longe. Adoras trovoada, principalmente de noite. Ver o céu iluminar-se por instantes, contar os segundos que se encontram entre a receção da luz e do som. Costumava ser um dos teus passatempos favoritos no Inverno, quando chovia, fechavas-te no quarto, deitavas-te na cama e tapavas-te com tantos cobertores quantos tinhas, a janela deixavas aberta para ouvires os rugidos da natureza e sentires a água na cara. Odeias chuva. Achas que, se existe algo mais, a chuva é a maneira que tem de se divertir connosco e ao mesmo tempo de mostrar quem manda, acha-la suja e repugnante, e sempre que te molhas com ela parece que o teu corpo pesa mais setecentas e cinquenta e cinco toneladas, e que não és mais digno de viver. Neste momento é Primavera, portanto essas memórias de Inverno não te fazem sentir nada. Perdeste-te na contagem, já não sabes quantos segundos vão desde que viste tudo à tua volta clarear, de repente, vês tudo mais claro que aquilo de que gostarias e sem te aperceberes apenas ouves um zumbido agudo e irritante. Estás desorientado, já não sabes de que lado vieste nem que caminho estavas a seguir, levantaste a muito custo, sentes as pernas dormentes e estás com tonturas, tentas correr com todas as forças que tens, mas o chão é irregular, tropeças e voltas a tropeçar, chega a uma altura em que já não pousas os pés em condições, só queres que isto tudo acabe, e acaba. Cais mesmo com o queixo numa rocha pontiaguda que parecia estar à tua espera. Como se já não bastasse as tonturas, os zumbidos nos ouvidos, a falta de força no corpo e as dores nos tornozelos, tens agora também o teu maxilar a dar-te a maior das dores da tua vida, sentes o sangue a escorrer como se fosse chuva, odeias esta sensação. Tentas cerrar os dentes para aliviar a dor, mas sem sucesso, o pouco que mexes a parte inferior da tua boca só te faz sentir pior, jogas a mão direita ao queixo para tentares perceber em que estado estás. Não sentes pele. Não sentes carne. Sentes sangue, líquido, a escorrer com tanta pressão que pensas já ter perdido mais de metade daquele que tens no corpo. E por fim, sentes osso. Estilhaçado. Rachaduras e fracturas e todas as “uras” que agora não te lembras. Tentas levantar-te na esperança de ainda te conseguires salvar se voltasses para trás, sabes de uma velhota que dizem curar os piores males, mas, como toda a gente na terra de onde és natural, o mais provável seria fechar-te a porta na cara e deixar-te a morrer no poial.  Nisto reparas que o teu braço esquerdo ficou lá atrás, deslocaste o braço de tal maneira que pareces o Homem-Elástico. Não tens salvação. Querias sair de casa, daquelas quatro paredes horríveis e tenebrosas. Querias fugir da tua vida, que nem isso a consideravas, quando na realidade querias fugir de ti apenas, única e exclusivamente de ti, não conseguiste. Vais acabar por morrer daqui a algumas horas no máximo. “Ao menos que não demore muito. Quanto mais rápido melhor”, pensas, desesperado, inútil. A sorte está do teu lado e sentes um calor enorme a trespassar todo o teu corpo, primeiro nas costas, depois estende-se a partir daí. O clarão que o acompanha nem o vês, a única coisa de que distingues é a tal velhota em quem pensaste há pouco. Ela chega perto de ti, agacha-se, e pela primeira vez reparas bem na sua face, feia, velha, seca, cheia de crateras. Tem os olhos cinzentos. Não te fala, apenas fica ali, a olhar-te durante o que te parece ser minutos. Depois grita “Oito!”

Acordas. Estás exatamente na mesma posição em que te encontravas quando te encostaste pela primeira vez à ribanceira. Tens um pardal a bicar as tuas botas. O céu está azul e pela posição do sol devem ser nove e pouco da manhã. Abres a mochila, tiras uma sandes, dás uma dentada. Mastigas com tempo, a apreciar o prazer de comer, algo que sempre te incomodou foi a ideia de que como é possível algo tão banal e necessário ser uma das coisas mais maravilhosas no mundo e na vida. Partilhas um pouco do teu pão com o pardal.

- Oito?

sábado, 30 de junho de 2012

Isto é que vai um trinta-e-um


Quando decides a tua mente, quando fazes as malas e te preparas para embarcar e tomar um novo rumo, de repente, quase sempre, tudo desmorona. As incertezas voltam, os medos de que não seja o melhor a fazer. As memórias do caminho que te levaram onde estás agora, e que, ironicamente, é esse o caminho que neste momento pretendes abandonar. Mas não abandonar por completo, apenas fazer um pequeno desvio.
Abanas novamente a cabeça na esperança de retirar os pensamentos menos bons, como se fosses uma criança que acredita que eles te vão voar pelos ouvidos, mas eles não voam assim tão facilmente, eles não voam de maneira nenhuma, por mais força que empregues ao chocalhar o teu crânio, a tua, cada vez mais, caveira.
Agora dói-te o cérebro, e páras. Estás com tonturas, sentas-te. Ficas com vómitos, sentes o teu estômago às voltas, reparas que na tua face escorre água salgada, primeiro uma gota, depois outra, depois aos pares, e ainda antes de te dar vontade de as limpares já desiste da ideia pois o fluxo de lágrimas é igual ao da fonte de sangue que jorra do teu coração.
Sem a ajuda de ninguém conseguiste espetar uma faca bem afiada mesmo no centro do teu peito, os ossos para ti são agora uma mentira, os músculos inexistentes e os sentimentos são tudo o que te resta. O teu intelectual já não te é tão claro como pensavas há meia hora atrás, e o caminho de tijolos amarelos reluzentes que vias é agora um riacho poluído e curvilíneo. Largas as malas, baixas os braços, olhas para os teus pés, notas que estão lamacentos, estão totalmente sujos com uma pasta castanha e mole. Será que a consegues malear? Não, obviamente que não. Não deixes que a estupidez te leve a acreditar que podes utilizar essa coisa nojenta para concretizar o teu caminho! Sabes ao menos como isso foi aí parar? Não pois não? Então pára! Já chega...
Basta de ilusões que não te levam a lado nenhum, ainda não te cansaste de acreditar que a tua vida é realmente tua? Agora apercebes-te de que a tua vida não é tua, de que é apenas fruto das circunstânceas, que o teu rumo é uma espécie de destino que estreita e encurta consoante a luta que ofereces, e pensas, de ti para ti, que não há já muito a fazer, deixar andar é aquilo que pressentes ser o melhor.
Agora sim, jogas as mãos à cara para te limpares e secares, mas já vens tarde, não tens a cara molhada, o líquido já secou, quer à superfície quer por baixo dela, o punhal cravado prependicularmente ao teu tronco já começa a apodrecer. O tempo esgota-se.
Mexe-te! Move esse cu flácido e gordo dái! CORRE! O tempo esgota-se. Olhas em volta mas não vês nada, cegaste! És invisual e invisível para ti mesmo. O tempo esgota-se. Pensas que se não vês o mundo o mundo também não te vê a ti, tentas fugir, esbarras contra a parede, até podes fugir mas não te podes esconder, e pelo andar da carruagem nem fugir consegues. Estás prestes a morrer e o tempo esgota-se.
Queres deixar coisas para trás, queres manter outras. Queres evoluir mas tens medo de partir, medo de fugir, medo de sorrir, medo de te ver e medo de sentir. Tens medo que o tempo se esgote antes de tomar a tua decisão, e agora sentes a pressão nos teus ombros, a carga é enorme, foge, foge, foge, corre, acelera o passo, acelera o pensamento e faças o que fizeres não olhes para trás, pois o Passado vai estar sempre a olhar para ti, a chamar-te de volta e se te voltares vais sucumbir. Corre cabrão, corre. O tempo esgota-se. Pões o teu boné virado para trás, como fazias com 10 anos, fechas os olhos com força e abres com ainda mais força, fazes força com os pés no chão que é agora de terra batida na esperança de teres um óptimo impulso para o que aí vai, fazes força a cerrar os punhos com força. O tempo esgota-se. Escorregas, cais, toda a força que fizeste desvanece numa nuvem de gás com os teus pensamentos. O Tempo esgotou-se.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dá-me a mão e vamos passear

(Foi por ouvir esta música que iniciei esta escrita, agradecia que quem a lesse fizesse o mesmo. Obrigado)
Por acaso é bastante engraçado quando, ás vezes, vamos dar uma volta nos campos da memória, ver imagens do passado, filmes do que já aconteceu. Por vezes o que mais nos apetece dizer é "para a próxima fico-me por ler o livro", mas não teria a mesma piada, não teria sentido sequer. Ao jogarmo-nos de cabeça é que nos podemos aperceber de que se calhar não estamos a fazer o que seria preferível. Mas enfim, chegamos a um ponto em que julgamos que a vida a bela, depois olhamos para trás... e constatamos que, de facto, a vida é bela, nós é que temos a terrível mania da complicar, maior parte das vezes pelo que passou ou pelo que ainda vai passar, mas quanto ao futuro ainda temos o desconto da incerteza, agora o que ficou lá atrás, lá atrás está, não há muito que se possa fazer. Como por exemplo, já não posso mudar o facto de ter começado a escrever este texto, posso apagá-lo sim, mas isso não significa que não o tenha escrito, possivelmente ainda ficaria mais revoltado a pensar que o deveria ter escrito até ao fim e até mesmo publicado.

(Caso a música anterior ainda não tenha acabado, aprecie-la. Quando o silêncio estiver instalado, por favor, oiça esta. Obrigado)
Meia dúzia de frases sem dizer nada depois, a bottom line da coisa é que é o Passado que nos faz naquilo que somos, se gostaríamos de mudar algo temos de ter noção de que mudaria praticamente tudo. Assim que a poeira assenta é fácil olhar para trás e, não digo rir, mas sorrir com as coisas, ver o que aprendemos, e, sinceramente, dá-me vontade de dar abraços às pessoas que encontrei pelo caminho. Umas posso, outras não. Umas devo, outras não. Umas seria um abraço forte, sentido, e até mesmo com lágrimas nos olhos, outras seria um abraço sem força, sem vontade, sem motivo, sem tudo aquilo que faz de um abraço um abraço.
Um beijo ao meu passado, e um obrigado por me ter feito em quem sou hoje.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Desafio

Pequeno grande desafio, corrigir todos os erros no texto seguinte:

Iço das peçoas dizerem cos jovens nãm sabem escrever é tudo muito bonito mas nãm tem muinta curespondensia com a rialidade. Primero porqe escrevemos com forme no zé em si nado, depois porqe nãm fas mal cuando no zenganamos, qer tenhamos boas ou más cõmpuzissões paçamos sempre dano, logo a partir daí tamos relachados. E mais, vemos eros em tudo cuanto é sítio, principalmente nos oregãos so cumunicassão çossial, como a tevê e os jornais, já para nãum falar na publissidade.

Depois à tamém a maneira como ençinão o abêcêdário, eu sêmpre aprêndi qe o gê é gê e não jê, eu digo qe tenho um gato, não tenho um jato. Otra, eu poço fazer um pacto com o diabo, nãum é um pato, pato é com aros. Abrão o zolhos e vejão o mal qe tão a fazer agente.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Novo Website

É hoje inaugurado e mostrado ao mundo o novo website que eu, em conjunto com mais 4 amigos temos estado a trabalhar para desenvolver, site esse que podem visitar ao carregar aqui!
É simplesmente um site onde colocamos algumas reviews, ou fotografias, ou músicas, ou simplesmente aquilo que quisermos, no fim das contas o site é nosso!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Big Mash Potato Update

E escrevo esta mensagem precisamente no momento em que o relógio marca 00:00

Dentro de poucas horas a nova página vai estar virada, e a vida de um alentejano em Lisboa armado em survivor começa. Mas antes um pequeno ketchup!

Já passou a marca dos 14 meses e ainda dura, se bem que pouquinho, a fase de recuperação da operação a que fui submetido para a remoção de um sinus pilonidal, e as Crónicas de um Sem-nalga ainda correm! Tristeza, mas desde que não volte ao mesmo tá-se bem.

Depois, temporada no Verão a trabalhar in Algarve, ya, dois mesitos em terras de sul de Portugal a vender tabaco para ver se o país encolhe em população, sem esquecer do jornalito com as notícias fresquinhas nos dias quentes!

Provas da ESTC, fui à fase de pré-selcção, passei à la rasquinha mas por motivos de força maior não pude realizar as de selecção. Better luck next year mo-fo|

E assim se faz um resumosito dos últimos meses, a partir de hoje é viver em Lisboa, e dar-lhe no duro!

Oh! já me olvidaria de uma das coisas mais fantásticas deste período! O lançamento da minha primária obra literária (sim isso mesmo) de teor poético (leram bem sim) que incluí poemas dos que aqui vos apresento. O lançamento está para breve, esperem por novidades nas próximas semanas!

Com carinho me despeço, e bom dia, boa tarde, ou boa noite consoante a hora em que me estiverem a ler ;)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Perras, Guillermo Ríos (2011)

Um filme estranho que fala acerca de não se sabe bem o que, nem como e muito menos quando. É um daqueles filmes que só no fim as coisas fazem sentido, mas até aí tudo bem, agora nem no fim as coisas fazem sentido! Claro, percebe-se a ideia do filme, mas há demasiada coisa, maior parte desnecessária! Salvava-se uma hora e meia dizendo logo que personagem “x” faz isto, e pronto, hora e meia de filme em cinco minutos. Mas também não quero passar a ideia de que ficaria melhor como curta (se bem que ficaria). O melhor deve ser ver a peça de teatro na qual o filme é baseado (há muita coisa que gostaria de ver como fazem em palco, a não ser, claro está, que não apareça no original!). Não recomendo o filme a quem não goste de filmes demorados, com pouca acção. Não recomendo o filme a quem se impressione facilmente e não tão facilmente mas ainda assim um pouco de forma simples. Não recomendo o filme a quem não goste de perder tempo. Não recomendo o filme a quem seja homem ou mulher, maiores ou menores de dezoito anos. E Principalmente não recomendo o filme a quem não goste de ficção espanhola. Ideia geral, não recomendo o filme a não ser a curiosos, a muito, muito curiosos (e mantenham em mente que a curiosidade matou o gato). Devo ter ouvido “pinche” e “puta” mais vezes que em toda a minha vida (e já não foram poucas as vezes que as ouvi, especialmente a segunda). Não querendo ser totalmente mau, há uma ou outra coisa interessante, mas não sei porquê não me recordo… De 0 a 10, 3 é justo.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

0% Hilariante

Inauguro assim uma nova categoria neste blog, "0% Hilariante", onde colocarei coisas que ninguém vai querer ver. Abro a primeira entrada com não uma, mas duas coisas que vos vão fazer reclamar pelo tempo perdido.


Hang In There by ~OnishiHakuma on deviantART


Conversa Entre Caninos by ~OnishiHakuma on deviantART

E de onde estas vieram muitas mais hão de vir! MWAHAHahah...ahahah...ah...ah...

domingo, 8 de maio de 2011

Mutante Lacrimoso - O Culminar Da Contradição


Um projecto que quer expandir horizontes e conquistar ouvintes, algo que os curioso não vão querer perder e quem odei não vai deixar de criticar! Para acabar com as dúvidas basta clicar no link e seguir as instruções! -> LINK

sábado, 9 de abril de 2011

Uma Letra Vale Mais Que Mil Palavras

Cheguei tarde e a más horas
Aniquilei qualquer sentido de responsabilidade
Tentei escapar à minha seriedade
A esperar alguma felicidade
Reneguei o que sabia ser certo
Intriguei-me acerca do feito
Não esperei qualquer compreensão
Aonde fui fui em vão

Assim peço pelo perdão
Mesmo sabendo que o não terei
Ontem era um dia diferente
Temos muito que ter em percepção
E ainda assim nada é sem um senão

sábado, 19 de março de 2011

Tantas Tangas

O fumo do tabaco faz as ideis aparecer
O alcoól da bebida gaseificada transforma o ar numa droga
As almas que rodeiam o morto tornam-se facas e objectos de assassínio
Da mesma forma que o morto jaz imóvel

Indivíduos Contemporâneos, Números Grandes Aos Milhares

Os erros são formas de aprendizagem. Certo.
As aprendizagens são parte do ser uno. Certo
A essencia não aparece do nada. Correcto.
A imaginação trata-se de mera inexperiência. Semi-verídico.
Um indivíduo nada mais é que um número. Errado.
Cabe ao próprio indivíduo permitir que tal aconteça, pois apenas se se esforçar é que tal acontece, porque mesmo que não em grande quantitade, há contemporâneos para os quais o indivíduo é mais que um número, e o número desses indivíduos é tão grande quanto o de contemporâneos.

Aldeia Das Sombras

Aldeia antiga e histórica
De contos e fabulas cantada
Escondida entre a serra e a planície
Um vale roto e esquecido
Uma triste consequência geográfica
Vítima de maravilhosas catástrofes
Tecnicamente esporádica
Casa de deliquentes
Poderosos e descontentes
Senhores do nada

Complicações vividas despreocupadas
Cabelos brancos ganhos em vão
Na demência de uma ilusão
No caminho custoso de um ser caminhante
Uma luz que brilha mas não guia
Um final de linha encoberto na penumbra
Uma ilha longe de tudo
A aldeia das sombras

segunda-feira, 7 de março de 2011

Reviews E Let's Play(s)!

É com gosto que vos trago hoje dois pequenos embriões.
O primeiro trata-se de uma serie de reviews a jogos do sucesso sociovirtual facebook, podem clicar aqui e procurar a Lista de Reprodução denominada "Playing facebook".
Em seguida, e também ainda no começo, sugiro-vos uma serie de Let's Play (abreviado LP) onde podemos ver jogos nostálgicos jogados de uma ponta à outra, basta carregar aqui e escolher o que mais vos agradar.
Deixo-vos aqui os primeiros episódios de ambas as series: